sábado, 23 de setembro de 2017

Eduardo VIII

Eduardo VIII foi monarca apenas durante dez meses e vinte e cinco dias. Viu-se forçado a abdicar apenas porque o seu casamento com uma norte-americana duplamente divorciada não era aceitável numa conservadora família real inglesa.

Desde 1936 até aos nossos dias que as mais diversas teorias para essa abdicação nos são apresentadas. Parece mesmo que a senhora divorciada não seria o único argumento, mas o facto é que, ontem como hoje, na religião anglicana (o chefe é o próprio rei) uma mulher divorciada não pode ser rainha.
Carlos de Windsor, herdeiro do trono quando casou recentemente com Camila Parker-Bowles terá escrito uma nova página da história do seu país.
Recordamos hoje aqui o lado ignorado do seu tio-avô, o rei Eduardo VIII que foi durante vinte e cinco anos Príncipe de Gales: Eduardo VIII rei da Grã-Bretanha, da Irlanda do Norte e imperador da Índia tornou-se célebre, porque foi o primeiro, que na história da velha Albion, abdicou do trono.

No dia 23 de Junho de 1894 às dez horas da manhã nascia, em White Lodge, Richmond Park no Surrey, o filho primogénito do futuro rei Jorge V e de sua mulher Maria de Teck (Maria Augusta Luísa Olga Paulina Claudina Inês). O apelido Teck pertencia a um principado alemão. O neófito tinha ainda vivos o avô Alberto-Eduardo (EduardoVII) e a bisavó, a tutelar rainha Victória. O princepezinho nasceu em plena semana das corridas de Ascot e o baile no Grande Parque de Windsor foi interrompido, por momentos, para se anunciar a chegada do novo membro da família real. Todos brindaram ao acontecimento e consideraram, naquela típica fleuma britânica, que fora um dia muito inconveniente para vir ao mundo!
O nome completo do príncipe foi Eduardo Alberto Cristiano Jorge André Patrício David, sendo os quatro últimos nomes de santos respectivamente da Inglaterra, Escócia, Irlanda e País de Gales. Teve no seu baptismo doze madrinhas e doze padrinhos. A rainha Victória ficou radiante com o nascimento do primeiro bisneto, visto o seu reinado entrar no quinquagésimo sétimo ano. Foram tirados retratos com as quatro gerações, pois tal facto aconteceu pela primeira vez naquela monarquia secular. 
Eduardo passou a sua infância em Sandringham numa bela casa a que chamavam Iorque Cottage. Teve, como os irmãos, nurses e aprendeu a ler, escrever e contar e brincava com os irmãos que foram nascendo: Alberto (que viria a ser rei), Henrique, Maria, Jorge e João. 
Na cerimónia fúnebre da rainha Vitória, em 1901, os dois príncipes, Eduardo e Alberto, tinham apenas seis e sete anos e foi com todo o aprumo que assistiram às exéquias da bisavó. 
Em Janeiro de 1901 Eduardo VII, filho da rainha Victória, subiu ao trono, que ocupou apenas até 1910, data da sua morte. Entre avô e neto (Eduardo VII e Eduardo VIII) houve uma amizade grande, forte, especial, afável e cheia de humor e este avô influenciou muito a formação intelectual do neto, que gostava de ouvir as suas histórias, porque Eduardo VII, quando príncipe de Gales percorreu o mundo inteiro e era uma cidadão do mundo. Foi amigo do nosso rei D. Carlos casado com a rainha Dona Amélia e da rainha-mãe, Maria Pia de Sabóia. 
Eduardo (Futuro Eduardo VIII) e o irmão que se lhe seguiu, Alberto (pai de Isabel II), foram educados por um antigo professor de Oxford, aprendendo as matérias que era costume na época: ciências, letras, história e geografia, completadas com exercícios físicos, em especial cricket, golfe, futebol e equitação(rigorosamente vestidos à escocesa). Para aprenderem línguas tinham professores de francês e alemão. Eduardo falou sempre melhor o alemão que o francês e seria mais tarde francamente germanófilo. 
Em Fevereiro de 1907 Eduardo, que em família foi sempre chamado pelo seu último nome, David, entrou para o colégio naval de Osborne, tendo depois passado ao de Darmouth. É de referir que os príncipes Eduardo e Alberto foram a primeira geração de membros da família real que estudou em escolas públicas. Era um progresso. 
Porém o pai, o rei Jorge V, decidiu que o filho mais velho devia abandonar a Marinha. Passou por Oxford, sem se evidenciar como aluno. Em 1912, com 18 anos, Eduardo passou uns meses em Paris, sem adivinhar que um dia seria a cidade onde iria viver. Ficou hospedado no castelo de Breteuil, mandado construir por Luís XIII. Desde os 17 anos que, como herdeiro do trono, Eduardo tinha o título de Príncipe de Gales. Era admirado pelas jovens que o achavam bonito, amável e sorridente. Magro, loiro, não muito alto e com uns olhos muito azuis, muitos lares ingleses tinham orgulhosamente o seu retrato emoldurado na parede. Eduardo desde cedo sentia alguma distância perante o pai. Jorge V foi um rei perfeitamente à antiga. O primogénito, desde sempre mostrou uma certa rebeldia pelas cerimónias e pompa, própria das cortes antigas. O luxo e os uniformes nas paradas deixavam-lhe uma sensação de mal-estar.

Como qualquer jovem, daquele tempo, ir para a guerra era a melhor oportunidade de se cobrir de glória. A guerra tinha ainda uma aura de heroicidade e virilidade que um herdeiro de uma coroa não podia desprezar. Mas os dois jovens príncipes só pontualmente apareceram no teatro das operações. O duque de Iorque (futuro Jorge VI) tinha pouca saúde e era mais poupado às cerimónias oficiais. 
O príncipe herdeiro desejou ardentemente participar com o seu país na 1ª Grande Guerra, mas quando se apresentou, em Outubro de 1914, em Whitehall fardado e pronto a partir, foi-lhe explicado que, como herdeiro do trono, não podia participar na guerra, ao que o jovem respondeu: «Que importa se morrer, tenho mais quatro irmãos!». O ministro da Defesa, Kitchener, explicou-lhe que morrer em combate era uma honra, mas o perigo era ser feito prisioneiro e isso sim, era a maior indignidade para um príncipe. No entanto, em França Eduardo ainda foi ajudante de campo de um general. Esteve ainda no Egipto e depois no Sudão, em Cartum, e teve de redigir um relatório sobre a situação no canal de Suez. No Egipto não se deixou seduzir pelas belezas da Antiguidade. Era um homem virado para o presente «aos faraós mumificados ele preferia lidar com os soldados vivos australianos» ( Emil Ludwig, La Vie Romanesque d’ Edouard, Duc de Windsor, Paris,1946, p.33). 
No dia da assinatura do armistício uma multidão ovacionou o casal real em frente a Buckingham Palace, e o povo pedia a presença do príncipe herdeiro, visto saberem que ele tinha, de algum modo, participado na Guerra. «We want the prince !», clamava a multidão e Eduardo apareceu à varanda e agradeceu a ovação.

Corre, como se sabe, nas veias da família real britânica sangue alemão (mais correctamente, prussiano), hoje temperado por sangue inglês. Sabemos que a Casa de Windsor era o nome da casa de Saxe-Coburgo-Ghota e que mudou o nome devido à posição da Alemanha na 1ª Grande Guerra. A dinastia de Hanôver manteve-se no trono inglês de 1714 a 1910. A própria rainha Victória sucedera no trono ao tio Guilherme IV, de sangue alemão. E se subirmos um pouco na ascendência da família real britânica ficamos a saber que vários reis (Jorge I, Jorge II, Jorge III foram eleitores de Hanôver, casados com princesas de diversos estados da Alemanha ainda alguns pertencentes à Prússia, com apelidos como Brandenburgo-Ansbach ou Mecklenburgo-Strelitz. Jorge IV casou com uma Brunswick. Os Wurttemberg eram ascendentes directos de Eduardo VIII e ele, ainda jovem, dava-se com os primos alemães. Mais do que uma vez esteve na Alemanha com o rei Guilherme II e Eduardo, desde cedo, notava as diferenças entre a vida oficial da corte alemã e inglesa, esta mais protocolar. Consta que sua tendência para a cultura e educação alemã terá, mais tarde, pesado fortemente no seu afastamento do trono. Esse assunto é uma longa história, que todos os dias é escrita, pois novos documentos se descobrem.

Como herdeiro, Eduardo, tinha de viver em Iorque-House, no centro de Londres e cumpria um rigoroso programa de viagens na qualidade de herdeiro. Em 1919 iniciou uma série de viagem pelo império britânico como embaixador do rei Jorge V. Esta viagem seria tudo menos uma viagem turística, como muitas vezes se pensa que são as viagens dos governantes. Esteve em todo o império, pronunciou e improvisou milhares de discursos, vestiu-se de gala e de modo menos convencional e terá apertado a mão a centenas de pessoas. Nesse tempo já havia máquinas fotográficas. e Eduardo comportava-se como um verdadeiro príncipe herdeiro. As notícias sobre ele eram diárias nos jornais da Grã-Bretanha, acompanhando a par e passo o menino bonito do país. Visitou o Canadá e quando chegou a Nova Iorque foi recebido em perfeito júbilo, pois, desde 1860 que não ia nenhum príncipe de Gales aquela antiga possessão inglesa. Eduardo comentaria mais tarde que detestava os papelinhos lançados das janelas com que os norte-americanos gostam de mimosear os convidados ilustres. Para eles ser um príncipe ou uma estrela de cinema era rigorosamente igual.
Nesta viagem Eduardo esteve também no Canadá tendo visitado as mais importantes cidades, e quis conhecer as tribos dos índios em Nibigon, e deixou-se fotografar tendo na cabeça um sumptuoso atributo de chefe. 
De regresso da viagem, em Dezembro de 1919, Eduardo, perante as mais altas individualidades do seu país pronunciou em Whitehall um discurso de meia hora, sem precisar de papel, o que constrangeu os mais conservadores. Não fez um discurso de circunstância. Abordou a sua visão do que era para ele o império britânico da época. Falou dos problemas sociais, do que se deveria fazer para melhorar as condições de vida das pessoas. Não esqueceu as crianças que à nascença deviam ter já boas oportunidades de acesso à saúde e educação, enfim... Palavras ditadas pela emoção e pela justiça social e não de circunstância. No dia seguinte os jornais e comentadores políticos escreviam: «O império tem um novo orador».
O herdeiro do trono fazia uma vida social normal para a sua idade e teve, como é óbvio, as suas namoradas. A primeira de quem se falou foi Lady Coke, tinha ele 21 anos e ela era muito mais nova; seguiu-se Lady Rosemary Leveson-Gower filha do duque de Sutherland. Com esta falou-se mesmo em casamento, mas ela acabaria por escolher o visconde de Edmon. 
Depois da 1ª Grande Guerra tinham proliferado por toda a Inglaterra os salões de baile. Toda a gente dançava. Eduardo também não escapava a este divertimento elegante. O salão mais bem frequentado, era o Embassy Club em Bond Street, frequentado por nobres, mas também por actores, escritores a bonitas senhoras requintadamente vestidas. Era tempo de diversão. Os loucos anos 20. 
Antes de surgir no horizonte a americana Wallis Simpson, Eduardo teve uma longa relação amorosa com Freda Dudley Ward, que era casada (mais tarde separou-se). Foi um romance prolongado e Eduardo apaixonou-se a sério por ela . Dudley tinha um enorme ascendente sobre o príncipe.
Não pudemos deixar de fazer algumas analogias com o caso do actual herdeiro do trono da Grã-Bretanha, esta atracção por uma mulher casada! 
Seguiu-se, em 1920, mais uma viagem oficial de meses: Austrália, Bermudas, Honolulu, Fidji e Nova Zelândia. Nesta viagem acompanhou-o o primo Lord Luís Mountbaten de quem era muito amigo. Eduardo escrevia pequenas notas de viagem e diria que o contacto com todos estes povos o enriqueceram a ponto de perceber que uma coisa é a vida palaciana coada pelas notícias dos políticos outra é a realidade palpável. Na Austrália, inaugurou uma nova cidade - Camberra - e deixou uma óptima impressão ao interessar-se pelas questões sociais. 
Em 1921 viajou para ao Japão e Índia. No Japão foi convidado pelo próprio imperador para o palácio imperial Na Índia atravessava-se um período difícil para a Inglaterra, com Gandhi a lutar para se libertar do jugo inglês, luta que manteve sem esmorecer durante cinquenta longos anos. Gandhi mandava queimar os tecidos ingleses para que o seu país tivesse indústria própria. Por outro lado muitos marajás cobriam-se de ouro e prata, montados em elefantes luxuosamente ajaezados querendo mostrar ao príncipe europeu o que era o verdadeiro “luxo asiático”. Eduardo chegou a ficar impressionado com as jóias que os elefantes luziam sobre peças de pano bordado a ouro. Em Lahore desfilaram perante o Príncipe de Gales 3 000 hindus cavalgando sobre soberbos cavalos. Era a Índia mítica que escondia uma realidade dramática. Só, em Agosto de 1947 a Índia passou a país independente. 
Nessa viagem, de oito meses, Eduardo percorreu quarenta e uma mil milhas de barco, comboios, automóveis e...elefantes! 
De 1922 a 1931 a vida deste Príncipe de Gales manteve-se sempre dentro do cumprimento estrito dos seus deveres de herdeiro do trono. É importante seguirmos a par e passo os sucessos daquele que foi rei com o título de Eduardo VIII, pois há vários autores que dizem que ele não tinha «queda» para ser rei e que a abdicação foi uma consequência disso. Não é verdade. Com 25 anos o príncipe herdeiro pensava e desejava ser rei. Não ao estilo do pai, mas sim um rei moderno, com uma visão mais alargada e democrática do mundo. A sociedade era outra. A época vitoriana que o pai prolongava estava completamente ultrapassada. Eduardo sempre cumpriu as ordens do pai. Em 1925 partiu para outra viagem. esta pela costa ocidental da África - Gâmbia, Serra Leoa, Costa do Ouro, Nigéria, até à Cidade do Cabo, na África do Sul. Aqui foi recebido por 190.000 pessoas. 
O rei Jorge V esteve muito doente em 1928 e o herdeiro do trono, nessa ocasião estava em África. O Príncipe herdeiro veio de avião ver o pai e este, olhando o filho, mesmo doente, os olhos brilharam e perguntou: «Mataste leões?». Como bom aristocrata inglês o rei achava que era importante o filho ter morto leões, o que não acontecera. Eduardo já não era do tempo das caçadas reais e tinha renunciado à caça grossa, desporto favorito de gerações de monarcas ingleses. Este pequeno episódio mostra bem como eram diferentes pai e filho. Diferentes no feitio e diferentes na mentalidade. Eduardo era um homem do séc. XX. Em vez de caçar filmou África e a sua fauna espantosa. 
Os ingleses mais conservadores apercebiam-se, nestes pequenos pormenores, que este príncipe não era, para eles, o rei ideal. Daí que, mais tarde, quando se procuravam soluções para o rei poder casar com uma divorciada, tudo foram entraves e dificuldades. Ninguém quis tornear a lei. Não tenho grandes dúvidas que se tivesse havido vontade política por parte da Igreja Anglicana, do Parlamento e do Primeiro-Ministro Baldwin, Eduardo VIII podia ter casado com Wallis Simpson e poderia ter sido rei.

O futuro rei Jorge VI nasceu, como o irmão, em Iorque Cottage a 14 de Dezembro de 1895. Teve uma educação semelhante à do herdeiro do trono. Representou o pai, em 1922, na coroação dos reis da Roménia. Da Marinha passou à RAF, sempre com problemas de saúde. Era tímido e melancólico. Estudou em prestigiados colégios e passou um ano em Cambridge, onde aprendeu história, economia política, sociologia e geografia. Foi um aluno aplicado. Diferente do irmão mais velho, visto gostar de passar horas a ler.
Ao contrário do que é usual, foi anunciado o casamento do segundo filho dos monarcas, antes do enlace do herdeiro. Alberto escolheu não uma princesa, mas uma escocesa nobre, que nascera num castelo da Escócia. O rei Jorge V e a rainha Maria deram o seu consentimento. Alberto conhecera a futura mulher, Isabel Bowes-Lyon, em Londres, quando esta tinha 20 anos. A noiva contava entre os antepassados Sir John Lyon que casara com Joana, filha do rei da Escócia, Roberto II. Mas os antepassados de Isabel pouco interessavam a Alberto, o que o terá atraído na jovem noiva era a sua segurança e personalidade, aliadas a um sorriso maravilhoso. Casaram em 23 de Abril de 1923, na Abadia de Westminster. Foi um casamento de amor que durou até à morte de Alberto, em 1951 (mais tarde rei com o título de Jorge VI). A rainha-mãe viveu mais de 100 anos. 
Este casamento fez levantar mais uma vez uma onda de interrogações sobre o casamento do herdeiro do trono. Estava a entrar nos trinta anos. Era mais que tempo de escolher esposa.

Apenas algumas notas sobre esta norte-americana, oriunda do Baltimore, duas vezes divorciada que entraria na vida de Eduardo, príncipe de Gales, e que faria mudar o rumo da vida deste herdeiro do trono da Grã Bretanha. 
Conheceram-se em 1931 «Aconteceu durante o Inverno que se seguiu ao meu regresso da viagem à América do Sul, em 1931», assim diz o duque de Windsor nas suas Memórias e também é essa a data apontada pela Srª Simpson no seu livro autobiográfico The Hert Has Its Reasons,( Nova Iorque, Crest Books, 1957). «Eu estava em Melton Mowbray, em Leicestershire, com o meu irmão Jorge, para onde fora à caça à raposa, durante um fim-de-semana. O casal Simpson tinha sido convidado e ficamos na mesma casa. Era um daqueles invernos ingleses, que fazem a sua reputação abominável e bem merecida: frio, humidade e nevoeiro. A Srª Simpson não montava a cavalo, nem se interessava por isso, nem por cães de caça, nem pela caça em geral». Em pólos opostos o que os terá aproximado? Mais tarde o casal Simpson foi convidado para uma recepção em Buckingham Palace. Quando começou o romance, não se sabe bem. Sabe-se sim que o casal Simpson passou a convidar Eduardo para o seu apartamento de Bryanston Square onde era recebido com extrema naturalidade e amizade. Nesse tempo Wallis parecia feliz com o seu segundo marido e nada faria prever o desenlace tanto daquele casamento como daquela amizade pelo herdeiro do trono.

Quando Jorge V morreu, em Janeiro de 1936, a rainha viúva, Maria, pegou na mão do filho mais velho, beijou-lha e se a frase habitual :«The King is dead. Long live the King». Nas exéquias do rei, pela primeira vez na história daquele país a guarda de honra, ao esquife real foi feita também pelos quatro filhos, por decisão de Eduardo VIII. 
Eduardo VIII subiu trono com a firme determinação de reformar e democratizar a monarquia, porém o seu envolvimento amoroso com Wallis Simpson fariam desses escassos meses de reinado um tempo de crise permanente. A Igreja Anglicana e o Primeiro Ministro Baldwin, que influenciou o Parlamento, tudo fizeram para que o rei tivesse que tomar a difícil atitude de abdicar do trono. 
Nos poucos actos públicos a que presidiu como rei introduziu inovações. Poderia ter sido um bom rei. A 3 de Novembro de 1936 cabia-lhe abrir a Sessão do Parlamento, e a tradição impunha que o rei se deslocasse de Buckingham Palace até Westminster numa carruagem de luxo puxada por oito cavalos, porém como chovia o rei decidiu, pura e simplesmente, fazer o trajecto num automóvel Daimler. No início de Dezembro vários bispos manifestaram-se por o rei tencionar secularizar a cerimónia da coroação. Os jornais ingleses não falavam muito dos problemas do casamento, mas no exterior, os jornais norte-americanos e franceses escreviam páginas e páginas sobre «O grande romance», «A história de amor do século».
Depois de esgotadas todas as hipóteses de Eduardo VIII casar com Wallis Simpson, depois do gabinete do Primeiro-Ministro informar o rei de que estava fora de questão o casamento morganático (o rei mantinha o título e atributos de rei, mas a esposa nunca poderia ser tratada por Sua Alteza Real) só havia uma solução - abdicar do trono. Eduardo avisou a mãe e os irmãos da sua decisão, enquanto a Srª Simpson partiu para o estrangeiro. 
Na noite do dia 10 para 11 de Dezembro de 1936, quando Eduardo, filho primogénito de Jorge V e de Maria de Teck, com quarenta e dois anos de idade, se dirigiu ao país, através da BBC numa voz pausada e contidamente emocionada, anunciou a sua decisão de abdicar. Os motivos que invocou são conhecidos. Não aceitava ser rei sem a companhia daquela de quem gostava. Ela era Wallis Simpson. 

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Biografia de Isabel de Portugal


 Filha do rei D. Manuel I e da rainha D. Maria, sua segunda mulher, Isabel nasceu em Lisboa, no dia 25 de Outubro de 1503. Imperatriz perfeitíssima lhe chamaram mais tarde os cronistas espanhóis. Numa Europa repleta de grandes convulsões politicas, religiosas e sociais, ela soube ser a mulher e a colaboradora do poderoso Carlos V. A sua beleza não foi um mito - basta olhá-la, serena e majestosa, pintada por Ticiano. 
             As primeiras negociações sobre o enlace entre D. Isabel e o imperador Carlos V (hoje as revistas diriam "o casamento do século"!) começaram no Outono de 1522, entre D. João III, seu irmão, e a corte espanhola. Ficaram acordados dois casamentos, o de D. João III com Catarina, irmã de Carlos e o de Isabel de Portugal com o imperador. O rei português casou primeiro e os trâmites para o casamento de Isabel demoraram mais uns tempos. Nestas coisas de casamentos, não há nada como uma "fada madrinha", e a recém- rainha de Portugal escreveu ao irmão a falar-lhe das muitas virtudes e beleza de Isabel, sua cunhada. Na Primavera de 1525, veio a Portugal o embaixador espanhol para tratar dos dois esponsais, tendo as primeiras negociações sido firmadas em 17 de Outubro de 1525.Almeinim foi o local escolhido. E aqui foi também celebrada a cerimónia do casamento, por procuração, em 23 de Outubro de 1525. Presidiu à cerimónia o bispo de Lamego, D. Fernando de Vasconcelos. 
             A partir daquele dia, Isabel de Portugal era já imperatriz. Houve festas e bailes e foi representada, pela primeira vez, a comédia Dom Duardos, de Gil Vicente. O dote da imperatriz foi de 900 mil dobras de ouro castelhanas, o que era uma enorme fortuna. Em Janeiro de 1526, começaram os preparativos da partida da imperatriz Isabel de Portugal para Espanha. 
             Com 22 anos, D Isabel parte rumo a Badajoz com uma grande comitiva. A comodidade da época não ia além de uma liteira, sendo o destino Sevilha. De Toledo, onde Carlos V tinha a corte, veio "um luzido acompanhamento", para fazer as honras à futura imperatriz. Carlos V mandou três emissários da mais alta honorabilidade. D. Isabel chegou a Elvas no dia 6 de Janeiro, acompanhada dos irmãos, D Luís e D. Fernando. Ao chegarem à fronteira, deram-lhe por montada uma linda "faca" branca, termo que significa cavalo pequeno, leve e magro, para maior comodidade na viagem. 
             Entrou em Espanha no dia 7. A cerimónia de troca de séquito ocorreu na fronteira, perto do rio Caia. A lindíssima D. Isabel, serena e sem mostrar o mínimo cansaço, ouviu o irmão Luís dizer as palavras do protocolo ao duque de Calábria: "Senhor, entrego a Vossa Alteza a imperatriz minha Senhora, em nome do rei de Portugal, meu senhor e irmão, como esposa que é da cesárea majestade do imperador." No final, em vez do protocolar beija-mão, D. Isabel quis abraçar os seus irmãos. 
             A viagem demorou dois meses. No dia 10 ou 11 de Março de 1526, realizou -se o casamento com os noivos lado a lado, e a cidade de Sevilha engalanou as ruas e viveu dias de grande alegria. Quem esteve presente nas bodas dos imperadores observou os recém-casados e comentou: "(...) Entre os noivos há muito contentamento, pelo menos é o que parece (...), e quando estão juntos, embora esteja muita gente presente não reparam em mais ninguém, ambos falam e riem, e nunca outra coisa os distrai". Como alguém disse, Carlos e Isabel casaram sem se conhecer e amaram-se depois de se conhecerem. 
             Os noivos imperiais ficaram uns dias em Sevilha mas, para fugir ao calor, seguiram para Córdova, com destino a Granada, onde chegaram nos primeiros dias de Junho. Ficaram no Palácio do Alhambra, onde era notória a influência árabe. Os mouros de Granada ofereceram, como prenda de casamento a Carlos e Isabel, 80 mil ducados. 
             Carlos, atencioso e meigo, deu a Isabel, por divisa, "as três graças, tendo uma delas uma rosa, símbolo da sua formosura, um ramo de murta como símbolo do amor e a terceira uma coroa de carvalho simbolizando a fecundidade". D. Isabel, além de ter um rosto de um perfeito oval, "olhos de garça", cabelos longos e loiros, com uma figura "esbelta e harmoniosa", terá percebido na lua-de-mel que a sorte a bafejara. Os noivos ficaram no Palácio do Alhambra, mas as comitivas eram tão numerosas que os familiares do lado de D. Isabel ficaram hospedados em São Jerónimo, magnífico edifício renascentista. Depois da passagem de Carlos V por Granada (onde nunca estivera), o Palácio do Alhambra sofreu beneficiações. Nestes dias de felicidade, Carlos ofereceu um cravo a Isabel, flor que na altura não era muito vulgar. E diz-se que foi por este gesto que um dos símbolos da Andaluzia e de Espanha é o "clavel".
             Em Dezembro, os imperadores partiram para Valladolid, onde chegaram no início do ano seguinte. Aqui, a imperatriz deu à luz, no dia 21 de Maio de 1527, o herdeiro do trono - Filipe (depois rei Filipe II de Espanha, Filipe I de Portugal). Sabe-se que o parto foi difícil e Isabel de Portugal sofreu muito. Como rainha, quis mostrar-se corajosa quando as dores eram quase insuportáveis. Num momento de maior sofrimento, estampado no rosto, a parteira pediu-lhe que gritasse, porque ajudava a descontrair-se, mas a imperatriz respondeu em português: "Não me faleis tal, minha comadre, que eu morrerei, mas não gritarei." 
             Isabel de Portugal tinha residência própria, independente da do marido, onde viviam quarenta damas e açafatas e mais de setenta jovens, rapazes e raparigas, alguns filhos do pessoal que lidava de perto com D. Isabel. Além da morada do imperador, havia as casas dos infantes e infantas (quando já tinham idade para serem independentes), e ainda o palácio da rainha Joana, mãe de Carlos, que vivia em Tordesilhas. 
             Foram contemporâneos de Carlos V e de Isabel de Portugal, umas vezes inimigos e outras vezes aliados, Francisco I de França, Henrique VIII de Inglaterra - que na sua sucessão de esposas contou também com uma tia de Carlos V - Catarina de Aragão e o poderosíssimo Soleimão, o Magnífico, senhor do império otomano no seu período de apogeu. 
             Enquanto Carlos V estava em guerra ou a negociar tratados de paz com países ou regiões da Europa, Isabel tinha as responsabilidades de regente. O seu cargo era, como ficou escrito, "lugarteniente dcl reino de Castilla". Foi regente entre 1529 e 1532 centre 1535 e 1539. Nessa qualidade, viajou bastante. Para amenizar as saudades e para tratar de assuntos importantes do império, Carlos e Isabel escreviam-se com regularidade. Por vezes, o imperador não escrevia durante meses, a ponto de preocupar a imperatriz, que numa carta lhe "ralhou", dizendo que ao menos lhe escrevesse "todos os vinte dias". 
             Devido ao clima demasiado quente de Toledo e de Sevilha, a imperatriz Isabel passava os Verões em Ávila, por ser mais ameno, pois sofreu diversas vezes de paludismo. Viajava no Outono, com regularidade, entre Toledo, Valladolid, Sevilha, Barcelona e Maiorca. Quando tinha notícia de que o marido ia regressar, mandava preparar uma recepção, com grande comitiva, mas durante o tempo em que estava sozinha com os filhos, as damas e conselheiros da corte, Isabel de Portugal fazia uma vida muito ascética. 
             Em 1529, nasceu a filha Maria e, mais uma vez, foi um parto doloroso e complicado. Durante os 16 anos de casamento, Carlos não procurou outra mulher, mesmo nos períodos de ausência de casa. Isabel de Portugal foi novamente mãe, em 1535. Esta filha, Joana, viria a casar com o príncipe João Manuel, filho de D. João III de Portugal e de D. Catarina. Ficou viúva e à espera de um filho, que viria a ser o malogrado rei D. Sebastião, morto em Alcácer-Quibir. 
             Quando Isabel de Portugal morreu de pós-parto, em 1539, o imperador estava ausente em Madrid e ficou muitíssimo amargurado. Refugiou-se no Mosteiro de Sisla, vestido de negro, cor que usou até ao fim dos seus dias. Rezava. E frequentemente os seus vassalos lhe viram lágrimas nos olhos. Temeu-se pela sua saúde, tal era o seu sofrimento pela ausência de Isabel. Para ter perto de si a imagem daquela que ele tanto amara, encomendou um retrato a Ticiano. Era costume fazerem-se as máscaras mortuárias dos falecidos ilustres e terá sido a partir dessa máscara de cera com as feições da imperatriz que Ticiano concebeu o retrato. Quando o imperador o viu, não o achou perfeito e quis que o mestre pintor retocasse o nariz de Isabel. E assim fez Ticiano. Aliás, pintou dois quadros quase iguais. Um desapareceu, anos mais tarde, num incêndio. Resta apenas aquele que acompanhou Carlos V quando se retirou para o Mosteiro deYuste, em 1556, e que esteve na grande exposição de Toledo, de Outubro de 2000 a Janeiro de 2001. 
             A vida de Francisco de Borja está indissoluvelmente marcada pela de Isabel de Portugal, porque este fidalgo viria a protagonizar uma história verídica, devido à morte da imperatriz. 
             Francisco de Borja serviu na corte de Carlos V, onde conheceu a sua futura mulher, dama que foi no séquito de Isabel de Portugal. Deste casamento, nasceram li filhos, tendo sobrevivido oito. Em Maio de 1539, quando morreu Isabel de Portugal, o imperador pediu-lhe que tratasse das exéquias. A imperatriz morreu em Toledo, mas foi a enterrar em Granada. Acompanhou-a também o filho Filipe, que estivera sempre muito próximo da mãe. Entre a morte e o dia "da tumulação", mediaram 16 dias. O calor era tal que, quando Francisco de Borja viu, ao abrirem a tampa do caixão, a face daquela que fora a mulher mais bela do seu tempo, completamente irreconhecível, ficou tão impressionado que terá dato que, a partir daquela data, não mais ser viria nenhum senhor na Terra. Iria dedicar-se, de alma e coração ao serviço de Deus. Ficou viúvo em 1546 e entrou para a Companhia de Jesus, tendo feito votos solenes em Fevereiro de 1548. Foi ordenado sacerdote em 1551 e viria a ser impulsionador da cristianização das colónias espanholas e do Brasil. Foi canonizado em Abril de 1671. 
             Isabel de Portugal, por desejo do filho Filipe, seria trasladada, em 1574, para o Mosteiro do Escorial, 
             Depois da morte de Isabel, Carlos V passou mais tempo isolado. Deixou pouco a pouco os negócios políticos e abdicou, em 1556, a favor do seu filho Filipe, que subiu ao trono como Filipe II de Espanha, enquanto que o seu irmão Fernando lhe sucedeu como imperador da Alemanha. 
             Nos seus tempos de juventude, Carlos teve uma filha, fruto dos amores por uma flamenga, Margarida Van der Gheist. Esta filha casará com um Médicis e depois, já viúva, com o duque de Parma. Já viúvo de Isabel de Portugal, aos quarenta e cinco anos, o imperador Carlos V teve uma relação amorosa com uma jovem, que lhe deu um filho - , João de Áustria. No recolhimento de Yuste, Carlos V não se afastou completamente da vida política, mas levou uma vida simples. Olhando para o retrato de Isabel, terá então recordado os anos de felicidade com a imperatriz perfeitíssima. 
             Carlos V da Alemanha, Carlos I de Espanha morreu a 21 de Setembro de 1558. Isabel e Carlos estiveram algum tempo separados, também na morte. Mas depois passaram a repousar lado a lado, no Mosteiro de São Lourenço do Escorial, panteão dos monarcas espanhóis, mandado construir por Filipe II. 

A autora agradece a Maria do Carmo Holbeche Beirão Cortez a sua colaboração.

Biografia retirada daqui

Fontes:
Manuel Rios Mazcarelle, Dicionario de los Reys de Espanha, 1996.
Carlos Fisas, Historias de las Reinas de Espacia - la Casa de Áustria, 18ª edição, Madrid, Planeta, 1997.
Manuel Fernadez Álvarez, Carlos V el rey de los Encomenderos Americanos, Madrid, Anaya, 1988.
Joseph Pérez, Carlos V, Ediciones Temas de Hoy, 1999.
Francisco Câncio, Portugal Histórico e Monumental, 1934, vol. 2.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Cadaval (D. Miguel Caetano Álvares Pereira de Melo, 7.º marquês de Ferreira, 8.º conde de Tentúgal, 5.º duque de).


n.       6 de fevereiro de 1765.
f.        14 de março de 1808.

Mordomo-mor da rainha D. Maria I, em 21 de março de 1807, por nomeação do príncipe regente D. João, e do conselho da referida soberana; grã-cruz das ordens de Cristo e da Legião de Honra, de França; marechal de campo dos reais exércitos em 9 de março de 1801 ficando desobrigado do comando do Regimento de Cavalaria de Meclemburgo, etc.

Nasceu a 6 de fevereiro de 1765; faleceu na Baía 14 de março de 1808. Era filho do 4.º duque de Cadaval, D. Nuno Caetano Álvares Pereira de Melo, e de sua mulher, a duquesa D. Leonor da Cunha. Foi-lhe concedido o titulo de duque por carta de 15 de maio de 1777; professou na Ordem de Cristo, como cavaleiro de hábito e a título de comenda de S. Pedro de Vilar Maior por decreto de 4 de junho do referido ano; teve o assentamento do título de duque de 750$000 réis por carta de 7 de junho de 1784, e por outra de 24 de março de 1785; foi-lhe confirmada a mercê de marquês de Ferreira e de conde de Tentúgal dos bens da coroa e ordens e de privilégios da sua casa, que lhe fora feita estando ainda na tutela da duquesa sua mãe, pelas portarias de 18 de maio de 1779, de 7 de julho de 1784 e por alvará de 10 de novembro deste ano.

O duque de Cadaval assentou praça de cadete no regimento do Cais, de que era coronel o conde de Cantanhede, em 1785, foi promovido a capitão para o regimento de Meclemburgo a 27 de janeiro de 1788, a tenente-coronel para o de Castelo Branco em 3 de novembro de 1792, a coronel a 29 do referido mês de 1796, e a brigadeiro em 15 de janeiro de 1801, sendo estes dois últimos postos para o regimento de Meclemburgo. O duque de Cadaval foi uma das testemunhas que assinaram a escritura da outorga das capitulações matrimoniais da infanta D. Mariana Vitória com o infante de Espanha D. Gabriel, que se celebraram a 12 de abril de 1785 no Paço da Ajuda, assistindo à cerimonia do casamento, que também ali se realizou nesse mesmo dia. Quando em novembro de 1807 a família real se retirou para o Brasil, o duque embarcou com sua mulher e filhos na nau D. João de Castro, a qual, separando-se da esquadra, teve uma viagem trabalhosa e demorada. Em meados de janeiro de 1808 avistaram a costa de Paraíba, e nos fins desse mês arribaram à Baía, onde o duque veio a falecer, por se lhe terem agravado os padecimentos, de que já se queixava ao sair de Portugal. A família, em 23 de março, logo depois da sua morte, embarcou para o Rio de Janeiro, onde chegou no meado de abril, e nessa corte se conservou até 1816, ano em que regressou ao reino.

O duque de Cadaval casou a 7 de outubro de 1791 com D. Maria Madalena Henriqueta Carlota Emília de Montmorency Luxembourg, dama das ordens de Santa Isabel e de S. João de Jerusalém, filha do duque de Pinay Luxembourg e Chatillon, que foi presidente da ordem da nobreza nos Estados Gerais de 1789. Deste consórcio houve quatro filhos: D. Adelaide, que faleceu em Alcobaça a 2 de agosto de 1833; D. Nuno, 6.º duque de Cadaval; D. Segismundo, 3.º duque de Lafões, por ter casado com a 3.ª duquesa deste título (V. Lafões) e D. Jaime, que foi marquês honorário.

Biografia retirada daqui


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Agamenon Magalhães

Agamenon Magalhães (1894-1952) foi político brasileiro. Foi Deputado Estadual, Deputado Constituinte, Ministro do Trabalho, Ministro da Justiça, Interventor Federal e Governador de Pernambuco. Agamenon Magalhães (1894-1952) nasceu em Vila Bela, atual Serra Talhada, no sertão Pernambucano. Filho de Sérgio Nunes Magalhães e de Antônia de Godoy Magalhães. Fez o curso primário em sua cidade natal. 

Estudou dois anos no Seminário de Olinda e depois no Colégio Arquidiocesano. Ingressou na Faculdade de Direito do Recife, onde formou-se em 1916. Foi nomeado promotor público do município de São Lourenço da Mata, iniciando-se na política sob a orientação de Manuel Borba. Em 1922 participou da campanha em favor da candidatura de Nilo Peçanha à presidência da República. Foi aprovado para a cátedra do Ginásio Pernambucano, com a tese de Geografia Humana "O Nordeste Brasileiro, o Habitat e a Gens". Com 29 anos foi eleito deputado estadual e reeleito para mais um mandato. 

Em 1927 foi eleito para a Câmara Federal. Em 3 de maio de 1933, foi eleito para a Assembléia Nacional Constituinte. Foi o deputado mais destacado da bancada pernambucana, defendendo o sistema parlamentarista de governo, o desenvolvimento do crédito agrícola, a intensificação da produção de alimentos, a elaboração de uma legislação que desse maior facilidade de acesso à propriedade da terra aos agricultores. Defendia o sindicato único por categoria profissional e a subordinação do órgão ao Ministério do Trabalho. Com a promulgação da Constituição de 16 de julho de 1934, o presidente Getúlio Vargas recompôs o ministério e nomeou Agamenon para Ministro do Trabalho. 

Esse cargo foi ocupado, no início do governo, por Lindolfo Collor. No dia 7 de janeiro de 1937, Agamenon acumulou a pasta do Trabalho com a da Justiça e passou a influenciar a sucessão presidencial que era disputada entre Armando de Sales Oliveira, José Américo de Almeida e Plínio Salgado. Agamenon Magalhães foi nomeado interventor federal em Pernambuco, em dezembro de 1937. 

Nas eleições de 2 de dezembro de 1945, foi eleito Deputado Federal, acompanhado de uma forte bancada pernambucana. Ocupou a presidência da Comissão Constitucional e da Sub-Comissão da Ordem Econômica e Social, na legislatura que se seguiu à Constituinte. Em 1950, resolveu disputar as eleições para governador de pernambuco, concorrendo com João Cleofas de Oliveira. Foi eleito com uma pequena margem de votos. Agamenon Magalhães faleceu no Recife, de um enfarte fulminante, no dia 23 de agosto de 1952.

Biografia retirada de e-biografias

domingo, 17 de setembro de 2017

Caio Calígula


O terceiro Imperador de Roma


Nasceu em Antium (Anzio), em 31 de Agosto de 12 d.C.; 
morreu em Roma em 24 de Janeiro de 41 d.C.



Último filho de Germânico, filho adoptivo de Tibério, segundo imperador de Roma, e de Agripina, filha de Agripa, tinha 25 anos quando se viu nomeado para o Império, devido à acção decisiva do perfeito do pretório Marco, que lhe obteve o juramento dos pretorianos, dos soldados e dos marinheiros da frota de Itália, e depois a investidura senatorial. Recebeu primeiro o título de imperator, e a seguir, e de uma só vez, todos os outros, com o poder tribunício e o pontificado, e por fim, um pouco mais tarde, foi considerado Pai da Pátria.  

Desta maneira, este jovem que só tinha a seu favor o ser o único filho sobrevivente de Germânico e o principal herdeiro civil de Tibério, conseguiu, de uma só vez, tal como um príncipe real, reunir todos os títulos, e todos os poderes, que Augusto, o primeiro imperador romano, tinha levado anos a acumular e que Tibério tinha em parte recusado. Assim, e muito rapidamente, o Principado deixou de ser uma lenta consagração política de uma pessoa, para se tornar uma instituição constitucional, de facto uma instituição monárquica, cuja nomeação dependia da aprovação do exército e da investidura formal pelo Senado.

As legiões das províncias aceitaram o decidido em Itália e Roma, e prestaram juramento de fidelidade a Caio, que passou a realizar a cerimónia de juramento anualmente. Os primeiros meses do governo foram calmos, tendo o príncipe mostrado o desejo de governar com o Senado, chamando do exílio as vítimas de Tibério, honrando os membros da sua família - a sua avó Antónia, o seu tio Cláudio, esquecido por toda a gente, e mesmo Gemellus, nomeado co-herdeiro com Caligula por Tibero, que vestiu a toga viril e foi declarado Princeps juventutis. Não proclamou a apoteose de Tibério mas distribuiu o legado imperial como previsto, aumentando o seu valor.

Pouco tempo depois a avó Antónia morreu, a única pessoa que poderia ter alguma influência sobre ele, já que o tinha educado na infância. Adoeceu gravemente, provavelmente com uma depressão nervosa, que terá actuado no seu carácter como um catalisador, mostrando a sua verdadeira natureza. Com pouca saúde, com várias doenças congénitas, como a epilepsia, a doença desequilibrou de uma forma irreversível este jovem dotado, inteligente e bom orador, fazendo com  que os autores modernos ainda hoje discutam o significado dos seus actos. É também preciso ter em conta  a sua inexperiência e a excitação do exercício do poder, para além da influência dos escravos e dos libertos orientais que conheceu em casa de Antónia, filha de António: é que parece haver em Calígula uma vontade infantil de reviver o sonho do seu antepassado, a «vida inimitável» do monarca helenístico, desdenhoso da austeridade conformista de Augusto e de Tibério.

Logo após o seu restabelecimento, Caio lança-se numa política, se é que é disto que se pode falar, extravagante e cruel que representam o essencial da biografia de Suetónio. Gemellus foi morto, já que era fácil de prever que seria a base de uma oposição futura. Em relação ao Senado mostra-se, tanto irónico como ofensivo, como cruel e sádico. Os melhores servidores de Tibério, velhos e excelentes membros da classe consular, assim como experientes governadores são ridicularizados, subjugados, necessitando de se rebaixar às mais reles baixezas e aterrorizados. Muito são executados sumariamente, algumas vezes em pleno Senado, ou obrigados ao suicídio ouvindo as graçolas do algoz imperial. As enormes despesas em realização de Jogos, em festas e outros esbanjamentos assim como em construções inúteis levam o tesouro deixado por Tibério à exaustão, e para encher os cofres de novo volta-se às condenações de ricos, tanto em Roma como na Gália, com confisco dos bens. 

No começo da sua governação Calígula contrariou muitas das decisões de Tibério, projectando entregar aos comícios as eleições que lhes tinham sido retiradas em 14, mas a ideia não foi para a frente. Queria governar, dizia, para o povo e a classe equestre, rodeando-se de libertos. Nomeia-se cônsul todos os anos, tirando o ano de 38, para sublinhar a preeminência do princeps na constituição. Retirou ao procônsul de África o comando da 3.ª Legião, Augusta, para que todas as tropas estivessem nas mãos dos legados imperiais. Mas, de facto, não mudou praticamente nada o pessoal administrativo das províncias, que não sofreram das suas loucuras, tirando a Gália, em que residiu entre 38 e 40, tendo em Lyon uma corte magnífica, rodeado de príncipes orientais, como Júlio Agripa, ou helenizados como Ptolomeu da Mauritânia, neto de António e Cleópatra, pela sua mãe Cleópatra Selena). A sua política externa opõem-se também aqui à de Tibério, e mesmo à de Augusto, que pretendiam acabar com os vários estados clientes existentes no Oriente. Calígula entregou vários territórios, como a Trácia, a Arménia, a Itureia, Damasco, uma parte da Judeia aos herdeiros dos reis desapossados, o que teve como resultado aumentar a confusão.

Mas há outro fio condutor. Calígula quis, e claramente desta vez, governar como um monarca oriental, como um déspota, de acordo com o seu bel-prazer. O mais grave é que para realizar o que pretendia não necessitava de modificar as bases do principado fundado por Augusto, já que os princípios de uma monarquia sem controlo estavam presentes na obra do «restaurador da liberdade» (vindex libertatis). Algumas das iniciativas de Calígula foram arcaizantes, como as festas em honra de Jupiter Latiar ou a reconstituição do rito do Rex Nemorensis (regresso às origens : aos montes Albanos), possivelmente inspirados pelo seu tio Cláudio, um sábio «antiquário». Os outros aspectos da política religiosa são mais lógicos; exaltação da ideologia oriental helenistica e de auto-deificação. Fez construir templos, sobretudo no Oriente, onde a sua estátua era colocada ao lado da divindade no naos. Tentou impor aos senadores a genuflexão como forma de saudação (proskysene), como Diocleciano fará dois séculos e meio mais tarde. Divinizou Drusila, a sua irmã referida, tanto em Roma como nas províncias, após a sua morte em 38, e rendeu-lhe culto como às mulheres-irmãs dos reis Ptolomeus do Egipto helenístico, o que fez nascer os boatos sobre relações incestuosas entre os dois. Tentou que o Senado mandasse construir um templo em sua honra no Capitólio, e enquanto esperava aumentou o templo de Castor e Polux, onde era adorado em pessoa. Fez ligar o seu palácio no Palatino ao Capitólio por uma passagem imensa, afim de poder contactar Júpiter mais facilmente, segundo as suas próprias palavras. A lembrança de António, a recordação da sua visita a Alexandria, acompanhando os pais, em 18 quando tinha 6 anos, a sua preferência pela monarquia Ptolemaica explica a sua devoção ao culto de Ísis. Por isso autorizou o culto, proscrito por Tibério, construiu no Campo de Marte um Isaeum, e inscreveu o culto de Ísis no calendário romano. As províncias orientais aceitaram facilmente esta política que irritava os Romanos. Mas ao querer colocar a sua estátua no templo de Jerusalém entrou em conflito com os Judeus.

Em Roma, onde tudo ainda se decidia, se as províncias se mantivessem calmas, as coisas não podiam manter-se assim durante muito tempo. Depois de ter alienado as classes dirigentes, Calígula teve a imprudência de criar impostos para os artífices e os comerciantes da capital, não perdendo também uma ocasião de insultar os tribunos das coortes pretorianas, que eram o único apoio que lhe restava. Após o falhanço sangrento de numerosas conspirações, foi finalmente assassinado pelo tribuno do pretório Cassius Chaerea, que foi o executor de uma conspiração onde se encontravam senadores, um dos dois perfeitos do pretório e de libertos importantes, cansados de tanto loucura.

O reinado trágico e louco de Calígula acabava em sangue, o primeiro de uma longa série. Mas, sob muitos pontos de vista, a política de Calígula não era completamente demente nem prematura: a hora do despotismo oriental é que ainda não tinha chegado a Roma. E de facto, havia outras maneiras de resolver as contradições deste regime monárquico fundado no respeito da tradição republicana, e o reinado seguinte, de Cláudio, iria mostrá-lo.

Fonte:
Paul Petit, Histoire Générale de l'Empire Romain, 1, Le Haut-Empire (27 av. J.-C. - 161 ap. J.-C.), Paris, Éditions du Seuil («Univers Historique»), 1974.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Yasser Arafat

Yasser Arafat foi, durante largos anos, a mais importante figura do movimento que tem vindo a pugnar pela formação de um Estado palestiniano. Convencido da superioridade das reivindicações do seu movimento, combateu, com ardor, todos aqueles que se opuseram à sua causa, surgindo, nos últimos anos, como uma espécie de mártir.
Arafat sempre se retraiu a expor a sua vida privada. O seu casamento com a palestiniana Suha Tawil, foi mantido em segredo largos meses. Deste enlace teve uma filha, Zahwa. Embora existam divergências sobre o seu local de nascimento, declarou ter vindo ao mundo em Jerusalém, a 24 de Agosto de 1929. Ainda criança, foi, com a sua família, para o Egipto, tendo concluído, em 1956, o curso de engenharia, na Universidade do Cairo. Nesse ano, durante a crise do Canal do Suez, participou voluntariamente no exército egípcio, tendo Iniciado, a seguir, a sua carreira como engenheiro no Kwait.
Em 1959, fundou o grupo Fatah, hoje uma das principais facções da Organização para Libertação da Palestina (OLP). A Organização, formada em 1964, compreendia, para além do Fatah, um apreciável número de grupos que pugnavam pela libertação da Palestina. Foi a Fatah, no entanto, quem, a partir da Guerra dos Seis Dias, ocorrida em 1967, demonstrou possuir um maior poder organizativo, pelo que, desde então, passou a liderar a OLP. A partir dessa altura, Arafat assumiu a presidência do Comité Executivo desta Organização. Uma parte apreciável da população palestiniana passou a ver em Arafat um estratega capaz de zelar pelos seus interesses na disputa territorial com os israelitas.
A ideia inicial da OLP era a constituição de um Estado palestiniano no lugar do Estado de Israel. No entanto, Arafat, ao reconhecer, em 1988, o Estado de Israel, passou a pressupor a existência de um Estado palestiniano coexistindo com os territórios israelitas. Para alguns analistas políticos, este reconhecimento não invalidou a percepção que Arafat detinha sobre o conflito.
Arafat recusou, nos anos noventa, uma proposta de paz apresentada pelo presidente israelita Ehud Barak, uma vez que esse acordo não contemplava uma solução para o regresso dos refugiados palestinianos e não tecia quaisquer considerações sobre o estatuto da cidade de Jerusalém, que ambos os povos disputam.
Em 1993, surgiu, no horizonte, uma esperança para o fim do conflito. Reunidos em Oslo, Arafat e o primeiro-ministro israelista Yitzak Rabin, tentaram conciliar as suas divergências, trazendo para o povo palestiniano a esperança de, em breve, poder constituir um estado próprio. A boa vontade demonstrada por ambos os líderes conduziu a que o prémio Nobel da Paz lhes fosse atribuído em 1995. Na sequência dos acordos de paz estabelecidos na reunião de Oslo, decorreram, em 1996, eleições na Palestina, tendo Arafat sido eleito presidente da Autoridade Palestiniana. Infelizmente, as cláusulas do acordo foram sendo, pouco a pouco, desrespeitadas, o que levou alguns analistas políticos a considerar que se perdeu uma boa oportunidade de encetar novos processos que conduzissem a uma situação de paz real na região.
Tendo fracassado todas as tentativas de conciliação, a guerra entre os dois povos endurece.
No ano 2000, surge, na Cisjordânia, a segunda Infantada, que os israelitas consideram ser impulsionada por Arafat, pelo que cercam os seus escritórios em Ramallah, na Cisjordânia, mantendo-o numa situação de isolamento apenas quebrada a 28 de Outubro 2004, em virtude do líder da Autoridade Palestiniana necessitar de tratamento médico urgente. Conduzido ao Hospital Militar de Paris, acaba por falecer a 11 de Novembro desse ano, deixando atrás de si um sonho por realizar e um futuro incerto na região.

Biografia retirada de O Leme

quarta-feira, 13 de setembro de 2017

D.Maria I


Primeira rainha reinante de Portugal, filha do rei D. José I e de Dona Mariana Vitória de Bourbon, de seu nome completo Maria da Glória Francisca Isabel Josefa Antónia Gertrudes Rita Joana, foi a mais velha de quatro irmãs. Muito religiosa e pouco atractiva, teve uma infância despreocupada dado a mãe ser uma espanhola amante do ar livre, de música e de conviver. Maria Francisca casou com o tio D. Pedro e tiveram vários filhos tendo apenas sobrevivido D. José, D. João (mais tarde rei, com o título de D. João VI) e D. Mariana. O seu reinado, depois de vinte anos com o pai no trono e com a pesada influência do Marquês de Pombal, não foi fácil. 

A nova rainha deu ordem para que se soltassem todos os presos políticos (mais de oitocentos) e com uma personalidade fraca e piedosa não teve uma acção governativa marcante. Porém, o seu reinado viu realizarem-se obras de vulto como a Academia das Ciências, a Real Academia da Marinha, a Real Biblioteca Pública de Lisboa (mais tarde Biblioteca Nacional, quando mudou para Entre Campos), entre outras. A rainha, muito ligada aos problemas dos mais desprotegidos, reabriu as audiências populares, interrompidas no tempo do pai. Era respeitada e amada e o marido esteve sempre do seu lado. Foi ele que comprou o palácio de Queluz onde viveram e, quando este morreu, em 1786, logo seguido do filho e herdeiro do trono, D. José, em 1788, deixaram a rainha num estado que a levaria a manifestações de loucura. 

A ela se deve a edificação da Basílica da Estrela, riquíssima de esculturas e recheio, que merece uma demorada visita. Com a partida para o Brasil, em 1817, devido à invasão de Portugal pelas tropas de Napoleão, as manifestações de loucura foram-se agudizando. Nem os mais famosos médicos do estrangeiro a curaram. De referir que a loucura era também hereditária em D. Maria I. Embarcou contrariada para o Brasil, onde faleceu aos oitenta e um anos. Os brasileiros não souberam que D. Maria I quis diminuir a pena de morte para prisão perpétua a Tiradentes, que assim foi executado, como eram os usos do tempo. Hoje é, muito justamente, um herói nacional.

Informação retirada daqui

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Manuel de Arriaga

Manuel José de Arriaga Brum da Silveira nasceu na cidade da Horta em 8 de Julho de 1840. Era filho de Sebastião de Arriaga Brum da Silveira, oriundo de famílias aristocráticas e descendente de flamengos que se radicaram na Ilha do Faial no séc. XVII e de Maria Cristina Ramos Caldeira, natural de Lisboa, também descendente de nobre linhagem. Tiveram seis filhos Maria Cristina, a mais velha, viria a ser poetisa e a ela se refere Vitorino Nemésio em "Mau Tempo no Canal. Outros dois filhos do casal Arriaga vão distinguir-se também. José de Arriaga, que foi historiador ("História da Revolução Portuguesa de 1820", 4 v.,1889; "História da Revolução de Setembro", 3.v., 1892 e "Os Últimos 60 anos da Monarquia", 1911), foi viver para o Brasil, onde morreu; e Sebastião Arriaga Brum da Silveira Júnior, engenheiro agrónomo, que, depois de estudar no estrangeiro, tentou um programa inovador de recuperação do Alentejo, mas morreu com 39 anos sem acabar o seu projecto; por fim, Manuel, o quarto na linha de sucessão, mas que por morte do irmão e sendo o segundo varão deveria ser o herdeiro, optou muito cedo pela via política. 
             Foi durante o período em que estudava na Universidade de Coimbra para se "formar em leis", no contacto com outros estudantes e professores e na leitura de outras formas de pensamento, que aderiu ao ideário republicano. Para este jovem loiro e de olhos azuis a quem nada faltava, a opção política veio privá-lo de tudo aquilo que leva tantos outros a seguirem o mesmo caminho: ascensão social, prestígio e fortuna. Manuel de Arriaga perdeu tudo isso. O pai deixou de lhe pagar os estudos e deserdou-o. Manuel de Arriaga teve então de trabalhar, dando lições de inglês para poder continuar o curso. 
             Este jovem açoreano, calmo e arguto, estava longe de saber que viria a ser o primeiro Presidente da República Portuguesa. Antes de ocupar a cadeira do poder (que nesse tempo era pouco), Arriaga passou cinquenta anos da sua vida como paladino de uma sociedade mais justa. Em 1876 fez parte do grupo que estudou o plano de reforma da instrução secundária. Foi membro do Directório do Partido Re-publicano depois de 31 de Dezembro de 1891. 
             Em 1882 fora deputado da minoria republicana. É com ardor que denuncia irregularidades no Governo, nomeadamente quando o ministro da Fazenda emprestou dos cofres do Estado elevadas quantias a socieda-des particulares sem dar conhecimen-to ao Governo. 
             Casa, com mais de trinta anos, com Lucrécia de Brito Barredo Furtado de Meio Arriaga, de famílias conhe-cidas da Ilha do Pico. A cerimónia ocorreu numa capelinha perto de Valença do Minho onde o pai era general e governador da Praça (de Valença). Os noivos vão viver alguns anos em Coimbra onde o Manuel de Arriaga exercia a profissão de advo-gado. Tiveram seis filhos, dois rapazes e quatro meninas. A família tinha o costume de ir passar as férias de Verão para Buarcos. Como ilhéu, Manuel de Arriaga e a mulher adoravam o mar, as crianças e as flores, dizia-se na família. 
             A última casa em que viveu Manuel de Arriaga seria em Lisboa perto da Rua das Janelas Verdes, precisamente para poder ver os barcos no Tejo. O quarto em que morreu o primeiro Presidente tinha na parede retratos de dois homens que muito admirava - Vítor Hugo e Alexandre Herculano. Por cima da cabeceira, a imagem de Cristo. 
             A par da sua actividade profissional, Arriaga foi fazendo o seu percurso político sem ódios nem exageros, o que, desde logo, lhe granjeou simpatia por parte dos seus correligionários e do povo, que se apercebia do seu empenhamento e carácter. 
             Era um orador admirado. Fizera comícios ainda durante a monarquia, como muitos outros, pugnando por uma sociedade mais justa, com menos privilégios e mais acesso ao ensino. Mais tarde, o Governo Provisório nomeou-o Procurador-Geral da República, "premiando assim um dos paladinos da propaganda republicana e que fora também um dos maiores causídicos portugueses" (J. Veríssimo Senão, "História de Portugal" vol. XII , p.l46). 
             A seguir à implantação da República, a 5 de Outubro de 1910, jovens republicanos estudantes de Coimbra entraram nas instalações do Senado e praticaram actos de vandalismo, tendo destruído parte do belíssimo mobiliário da secular Sala dos Capelos na Universidade, onde se efectuam as cerimónias dos doutoramentos, e numa atitude de selvajaria, balearam os retratos dos últimos reis portugueses que estavam pendurados nas paredes. "Para obstar a outras depredações o Dr. António José de Almeida, (republicano também desde a primeira hora), convidou o Dr. Manuel de Arriaga para reitor da velha Universidade e foi dar-lhe posse a 17 de Outubro de 1910, em cerimónia sem aparato académico, mas que bastou para serenar os ânimos estudantis" (Joaquim Veríssimo Serrão, História de Portugal", v. XII,p.320). 
             Em Agosto de 1911, já com 71 anos, Manuel de Arriaga é eleito Presidente da República. O outro candidato era o Dr. Bernardino Machado (também presidente mais tarde). Foi António José de Almeida, da facção moderada do Partido Republicano, quem se lembrou de sugerir o nome de Manuel de Arriaga como candidato à presidência, findo o período do Governo Provisório liderado por Teófilo Braga. Isto porque, segundo ele, Arriaga "era um dos poucos se não o único homem do Partido que se dava com toda a gente e de quem Homem Cristo não dizia mal". 
             Ser Presidente naquela altura não era cargo invejável nem particularmente prestigiado, pois Manuel de Arriaga teve de mudar para uma casa maior, um palacete na Horta Seca, e teve de pagar o mobiliário do seu bolso. E mais curioso ainda pagava renda de casa. Não lhe era dado dinheiro para transportes, não tinha secretário, nem protocolo e nem sequer Conselho de Estado. Foi aconselhado a comprar um automóvel para as deslocações, mas teve de o pagar também do seu bolso. Na falta de um secretário, Arriaga vai chamar um dos filhos para essa função e escolheu para chefiar o seu primeiro Governo o político e jornalista João Chagas. Mas dentro do Partido Republicano já havia cisões. António José de Almeida virá a fundar o Partido Evolucionista e Brito Camacho a União Republicana. Afonso Costa mantém-se à frente do Partido Republicano. 
             O nosso Primeiro Presidente não vivia no Palácio de Belém, mas num anexo e a entrada fazia-se pelo Pátio das Damas. Foi aí que nasceu a neta com quem falámos para a elaboração deste artigo. 
             O mandato de Manuel de Arriaga desenrola-se, como é sabido, num período agitado. Os governos sucedem-se por escassos meses. Oito mudanças na presidência do Governo, desordens nas ruas, reacções violentas contra a Igreja e movimentos de monárquicos. Por fim Manuel de Arriaga convida o Dr. António José de Almeida para chefiar o governo, mas perante a recusa deste, opta então por Afonso Costa que até 1917, foi o político mais influente da vida portuguesa. Afonso Costa consegue reduzir o défice, mas a instabilidade e a luta entre os Partidos é constante, agora agravada com a tensão internacional de 1914, que iria desembocar na Primeira Grande Guerra (1914-1918), desencadeada pelo assassinato do arquiduque austríaco Francisco Fernando em Sarajevo. O assassino pertencia a uma organização terrorista que lutava pela integração da Bósnia no reino da Sérvia 
             Logo no começo da 1ª Grande Guerra, há forte pressão sobre as colónias portuguesas de África principalmente em Angola e Moçambique. E a jovem república portuguesa vê-se a braços com demasiados problemas. Tentando evitar o pior, Manuel de Arriaga escreve aos três lideres dos partidos (Camacho, Afonso Costa e António José de Almeida) para se entenderem, para que se consiga formar um "ministério extrapartidário", mas Afonso Costa reagiu mal. O Presidente da República aconselha então a demissão do Governo presidido por Vítor Hugo de Azevedo e, para acalmar o exército, toma uma atitude, de que mais tarde se vai arrepender, ao chamar ao governo o general Pimenta de Castro, que já fora Ministro Guerra no tempo do governo chefiado por João Chagas. Arriaga conhecia-o e confiava nele. Joaquim Pereira Pimenta de Castro escolhe para os ministérios sete militares, não permite a reabertura do Parlamento, amnistia os monárquicos condenados, altera a lei eleitoral e vai governar como ditador. (Curiosamente em Lisboa há ainda uma rua com o seu nome.) 
             Os parlamentares, reunidos secretamente a 4 de Maio, no Palácio da Mitra, declaram Arriaga e Pimenta de Castro fora da lei e os seus actos nulos. A 14 de Maio de 1915 há uma revolta contra Pimenta de Castro, desencadeada pelo Partido Democrático, que conta com ao apoio da Marinha e começa uma autêntica guerra civil. Houve muitos mortos e feridos. Perante isto, o bondoso e pacifista Manuel de Arriaga só pode tomar uma atitude. Resignar do cargo. Escreve uma carta aos seus ministros e outra ao Congresso. Amargurado, o imponente tribuno de outros tempos (e também poeta, autor de "Cantos Sagrados" e "Irradiações") sai então da presidência, sem honra nem glória 
             Em política, as ingenuidades pagam-se caro. Manuel de Arriaga, que Raul Brandão definia com o um homem "profundamente altruísta e magnânimo de uma grande bondade e honradez", passou rapidamente a ser considerado um "criminoso político". Na época consideram-no culpado ou pelo menos conivente com as acções ditatoriais e violentas de Pimenta de Castro. 
             O deputado, escritor e jornalista, Augusto de Castro relata uma conversa com o ex-presidente Manuel de Arriaga pouco antes de este morrer, em 1917: "O velho, de admirável cabeleira de tribuno, de porte aristocrático e olhar romântico, que fora outrora um dos mais lindos rapazes do seu tempo, transformara-se em meia dúzia de meses, num velhinho curvado e triste (...) Arriaga contou-me os únicos prazeres do seu exílio - as flores, as suas telas, os seus poetas (...) Naquela tarde, sentado nessa saletazita que um raio de sol aquecia, contei ao pobre velho as minhas fáceis previsões. A política não fora feita para os idealistas e para os poetas, como ele - acrescentei. Arriaga escutou-me em silêncio, forçando um sorriso de comprazimento. Uma névoa de lágrimas velou-lhe o olhar. E como falando para si desenhando com a bengala no tapete pequenos traços trémulos, disse-me, com uma ironia em que procurou pôr altivez, mas em que apenas havia o fel de uma mágoa intraduzível: "Sou um criminoso político, meu amigo..." Quis consolá-lo e, para o fazer, lembrei-me de lisonjear o sentimento de popularidade e de justiça, que eu sabia ser a nota mais viva da sua velha alma de tribuno. "O povo que o estimou, continua, a despeito de tudo a amá-lo. Esteja certo disso. Ainda há pouco num teatro, o público, ao vê-lo caricaturado em cena, aliás sem o menor intuito desprimoroso, se levantou, numa manifestação de protesto e simpatia ao seu nome." E Augusto de Castro termina contando que, à saída de casa do primeiro Presidente da primeira República portuguesa, depois de comprar o jornal e ler que alguém se referia a Arriaga como "renegado e traidor", pensou: "Nunca, como nessa tarde, a política me pareceu uma tão cruel e sinistra coisa" (citado por João Medina, "História Contemporânea de Portugal", p. 257 e 258).

Nota: A autora agradece a uma neta de Manuel de Arriaga (entretanto falecida) a fotografia inédita da família e a autorização para fotografar um retrato pintado por Malhoa pertença da família Arriaga.

Biografia retirada de O Leme

sábado, 9 de setembro de 2017

D.Maria II


Nasceu em terras brasileiras. Teve uma infância despreocupada e feliz, mas cedo se preparou para ser rainha, ainda sem saber que o seu reinado seria um dos mais terríveis períodos da nossa História. Apesar de ter sido apelidada de “tirana”, o seu pulso de ferro escondia uma mulher alegre, bem-humorada e, acima de tudo, de uma vontade e coragem assinaláveis.
             Era domingo de Ramos naquele dia 4 de Abril de 1819. Foi com emoção e alegria que o rei D. Pedro IV de Portugal e sua mulher, a arquiduquesa Leopoldina de Áustria, tiveram a sua primeira filha: nascida em terras brasileiras, no palácio da Boavista. Alí vivia a família real, fugindo aos franceses que tinham invadido o reino. 
             Decerto, alguém se esqueceu de convidar as fadas para o banquete de baptizado, pois esta princesinha, loira como a mãe, de pele muito fina, não teve na pia baptismal mais do que um nome pomposo e um título, como se impunha à sua condição de futura rainha – Maria da Glória Joana Carlota Leopoldina da Cruz Francisca Xavier de Paula Isidora Micaela Rafaela Gonzaga, princesa da Beira e do Grão-Pará. Mas ninguém pegou na varinha de condão para desejar a esta menina uma vida longa e feliz, sem perturbações nem escolhos. 
             Na quinta de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, Maria da Glória vai ter uma infância despreocupada e feliz, educada e muito amada pelas camareiras do palácio e pelos pais. Aos 7 anos, essa alegria é interrompida abruptamente com a morte da mãe. O pai será o seu grande amigo e protector. Nem mesmo os graves problernas políticos que D. Pedro IV enfrenta no Brasil e em Portugal lhe fazem esquecer a sua filha mais velha a quem vai escrever cartas sempre ternas, que terminavam “adeus minha adorada filha...teu saudoso pai que muito te ama D. Pedro”. 
             Estava-se no ano de 1822 e a nossa princesa contava dois anos e meio quando nas margens do rio Ipiranga se dá o grito da independência do Brasil. Em Portugal, morre, entretanto, D. João VI e seu filho, D. Pedro IV, residente no Brasil, vai ter de optar entre ser imperador do Brasil ou rei de Portugal. 
             Escolhe o Brasil e, em 1826, abdica do trono de Portugal, em nome da filha, Maria, apenas com sete anos. 
             Outorga a Carta Constitucional e, simultaneamente, é combinado o casamento da jovem princesa com seu tio D. Miguel, na vã esperança de que em Portugal a paz pudesse triunfar. Mas adivinham-se graves perturbações. 
             Esta menina começa a pouco e pouco a perceber que vai deixar de ser criança e que o seu destino lhe vai impor uma conduta diferente da das outra meninas da sua idade. 
             Aos 9 anos, é mandada para a Europa, acompanhada pelo marquês de Barbacena, seu tutor, homem de confiança de seu tio D. Pedro, também ele nascido no Brasil, general e diplomata. O destino é a corte de Viena, para ser educada pela avó materna, mulher de Francisco I. Mas, durante o tempo da viagem, D. Miguel, em Portugal, proclama-se rei e o marquês de Barbacena considera mais seguro rumar a Falmouthe e, depois, até Londres. 
             Nesse período, em Inglaterra, havia uma numerosa colónia de portugueses liberais exilados. D. Maria é recebida com entusiasmo em Plymouth. Reinava em Windsor o rei Jorge IV. O duque de Wellington bem como lord Beresford, que, anos antes, tinham comandado os exércitos portugueses ao serviço de D. João VI, vão prestar-lhe as homenagens devidas. Nos seus 9 anos precoces, Maria da Glória diz ao duque de Wellington: “ Sei que vós noutro tempo salvastes meu avô; espero portanto que também agora salveis sua neta” e Jorge lV na recepção no palácio vai brindar “à sua jovem amiga e aliada, a rainha de Portugal.” 
             Sobre D. Maria, escrevia Almeida Garrett, no exílio: “Uma princesa que tem de reinar por si e por seu próprio direito, é fêmea de facto e varão de direito e a educação tem, neste caso, de contrastar a natureza e diminuir quanto é possível a mulher para que só fique a rainha”. 
             Por motivos de segurança, em 1829, D. Maria teve de regressar ao Brasil. As longas viagens devem ter-lhe dado tempo para meditar na sua vida, na maturidade que lhe era pedida ainda tão nova. E preparava-se para ser rainha, ainda sem saber que o seu reinado seria dos mais terríveis períodos da nossa História, época de radicalismos e constante guerra civil. 
             Sempre acompanhada da sua fiel camareira, D. Leonor da Câmara, Maria da Glória encontra no Brasil o pai casado pela segunda vez com Amélia de Beauharnais. 
             É esta que se vai incumbir da sua educação, impondo-lhe um horário espartano de estudo. Ela nunca simpatizou com a camareira, amiga e confidente da jovem princesa. 
             Em Portugal, a agitação é grande e, no Brasil, o seu pai tem também problemas difíceis. 
             Uma vez mais, Maria da Glória vai ter de atravessar o Atlântico, numa prolongadíssima viagem de 93 dias. 
             Chega a Brest a 11 de Julho e parte depois com o pai e a madrasta para Paris. D. Pedro vai voltar com a filha a Londres, no dia 7 de Agosto. É recebida pelos portugueses exilados políticos que, representados por uma delegação, irão, no dia 15, oferecer-lhe o belíssimo ceptro de ouro onde se evoca a Carta Constitucional. 
             Prenda de enorme significado político e de enorme valor com o qual a rainha se vai deixar retratar em mais de uma ocasião. 
             Segue depois para Paris, para a corte de Luís Filipe de Orleães, liberal e democrata que apoiava o partido de D. Pedro IV. A princesa e D. Amélia vão ficar hospedadas num palácio perto de Paris. 
             Para a princesa Maria esta curta estadia vai ser recordada como um dos períodos mais felizes da sua atribulada existência: idas ao teatro, bailes, convivência com os filhos de Luís Filipe, passeios, enfim, uma lufada de ar fresco nestes nove anos de constante vaivém. Será aqui que uma grande amizade irá nascer e durará até ao fim dos seus dias: Clementina, filha do rei, será a sua maior amiga, tendo trocado cartas regularmente. Essa amizade será mais tarde cimentada com o casamento desta princesa de França com um irmão do futuro marido de D. Maria. Dez anos depois, vão encontrar-se as duas em Portugal. 
             Enquanto D. Pedro IV organiza os apoios para a causa liberal contra o irmão Miguel, vai escrevendo para a filha, acompanhando o seu desenvolvimento intelectual e humano. A princesa tem os mesmos mestres que os infantes de Orleães. 
             Talvez o amor paterno tenha sido um factor importante na futura maneira como a jovem rainha irá ser mãe e educadora. 
             Para alguns historiadores, a rainha terá cometido erros graves como governante, mas são unânimes em lhe reconhecer os dotes de educadora. Daí o seu cognome.
             As lutas prosseguem em território nacional entre apoiantes de D. Pedro e de D. Miguel entre liberais e absolutistas. A resistência a D. Miguel tinha na ilha Terceira, onde chegará D. Pedro, o seu quartel-general e a sua bem organizada armada, com dezenas de fragatas e outras embarcações e milhares de homens que vão, a 7 de Julho de 1832, desembarcar no Mindelo, no norte do país. Vai ser o grande dia de triunfo das forças liberais de todo o país. 
             No ano seguinte, a população de Lisboa vai receber entusiasticamente D. Pedro e o duque da Terceira. É então decidido que o marquês de Loulé vá a Paris buscar a futura rainha, na esperança de que a sua presença seja factor de pacificação dos exércitos rivais. Mas as lutas prosseguem por mais uns meses e só em 26 de Maio de 1834 o vencido D. Miguel vai assinar a capitulação na Convenção de Évora-Monte. A 1 de Junho, parte para Génova para o exílio, sendo-lhe proibido voltar a Portugal. 
             Tem 15 anos quando sobe ao trono D. Maria II, o 29.º monarca português e a segunda rainha reinante da nossa História. As Cortes reúnem expressamente para proclamar a maioridade da rainha. 
             O seu primeiro acto oficial, em Setembro de 1834, foi conceder a seu pai, já entre a vida e a morte, a Grã- Cruz da Ordem de Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. Foi a própria rainha que lha colocou ao peito, perante a corte emocionada ao presenciar este gesto de justiça e ternura de uma jovem rainha para com aquele que fora muito mais do que rei, muito mais do que imperador, fora o seu grande amigo e protector. O pai morre poucos dias depois e D. Maria vai perceber que, a partir de agora, só consigo pode contar. Até a sua camareira fora afastada. A madrasta e as tias não lhe oferecem segurança. E vai enfrentar um país dividido em dois. 
             O seu primeiro ministério, presidido pelo duque de Palmela, encontra a oposição das Câmaras. Mas, por agora e por motivos políticos, é prioritário que a rainha se case e dê um herdeiro ao pais. 
             Às rainhas de Portugal estava vedado o casamento com estrangeiros e mesmo na Carta Constitucional de 1836 esse preceito ficara expresso. As Câmaras tiveram, pois, de se reunir para autorizar que a rainha pudesse casar com um estrangeiro. 
             Dos diversos noivos que lhe estiveram destinados, a madrasta vai-lhe escolher o seu próprio irmão. Fica decidido o casamento com Augusto de Leuchtenberg, neto de Maximiliano da Baviera. 
             A jovem rainha bem teria preferido casar com o duque de Nemours, filho de Luís Filipe de Orleães, que ela conhecia. Mas não lhe era permitido ter opinião, nessa altura. Acima de tudo, os interesses do Estado. Ou dos que a madrasta de Maria representava. 
             Luís Filipe de Orleães vai sentir esta escolha como uma afronta. Não podemos esquecer que a família real francesa tinha recebido D. Pedro, D. Amélia e D. Maria magnificamente, permitindo que D. Pedro organizasse num porto francês a frota que desembarcara no Mindelo e proporcionado à família portuguesa, num momento de crise, uma estadia verdadeiramente de luxo, tendo inclusivamente posto um palácio à sua disposição, com guarda de honra de cavalaria e infantaria, não privando os nobres hóspedes da menor atenção. Ao saber que a mão do seu filho era preterida pela de um príncipe austríaco, Luís Filipe vai ostensivamente demonstrar a sua desaprovação. 
             O casamento foi celebrado em 28 de Janeiro de 1835 mas o noivo morre de angina dois meses depois. Ainda mal refeita do acontecido, decidem casá-la de novo. O escolhido é Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha, casamento negociado pelo conde de Lavradio, ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro Governo Constitucional.
             Na conferência de Londres, os países europeus tinham acordado criar um novo país, a Bélgica, e para o seu trono fora escolhido Leopoldo de Saxe-Coburgo com o título de Leopoldo I. Fernando e Alberto são seus sobrinhos, primos entre si. Ambos vão casar com rainhas: Fernando com D. Maria II de Portugal e Alberto com a rainha Vitória de Inglaterra, com quem a nossa rainha vai manter correspondência ao longo do seu reinado. 
             As negociações do casamento foram longas e complicadas, visto D. Fernando ser possuidor no seu pais de grande fortuna e propriedades. 
             A rainha, jovem viúva, estava ansiosa por conhecer o seu futuro marido e chega a escrever à sua amiga Clementina para que lhe diga, ela que já o viu, como é ele. Quer saber tudo: se gosta mais do azul ou do cor-de-rosa, quer fazer o possível para lhe agradar, como qualquer jovem de 17 anos que vai casar com um jovem de 19. Casam em Abril de 1836 mas D. Maria só irá poder ver o seu marido meses depois. 
             Recebe-o de vestido azul mandado fazer em França. 
             Não será exagerado dizer que este casamento foi um raio de Sol na existência atribulada desta rainha portuguesa. Ela vai amar o seu príncipe. É verdade que fora um casamento político mas que se transformou num casamento de harmonia, entendimento e amor. 
             Como marido e mulher, vão estar do mesmo lado, se bem que no campo político nem sempre D. Fernando tenha apoiado a rainha. Mas esta tudo fez para que este estrangeiro fosse bem aceite pelos portugueses que desde logo perceberam que ele era mais dado às artes do que aos assuntos de Estado. 
             Após o casamento, D. Fernando é nomeado marechal-general do exército português e, como tal, vai combater durante vários anos. Nesses períodos de ausência, trocará cartas, em francês, com a sua jovem mulher, demonstrando que tinham bastantes saudades um do outro: são vulgares frases como “je pense toujours à toi”. 
             O reinado de D. Maria Il foi marcado por sucessivos confrontos entre adeptos da Constituição e da Carta Constitucional que defendiam de modo diverso o poder de intervenção dos soberanos. 
             Em Maio de 1836, procede-se a novas eleições. Nesse mesmo ano, dá-se a revolução de Setembro e a rainha é forçada a ir à Câmara Municipal jurar a Constituição de 1822. 
             Mas, em Novembro de 1836, dá-se novo golpe de Estado a – Belenzada - com o objectivo de restabelecer a Carta Constitucional que fora substituída pela Constituição de 1822. 
             A rainha está envolvida no golpe. D. Fernando está também do lado dos “cartistas”. No Tejo vai fundear uma esquadra com navios belgas e ingleses como medida de precaução para evitar que se dê algum incidente grave. 
             As forças antagónicas defrontam-se mas surge Passos Manuel que negoceia com a rainha. Assenta-se então na elaboração de urna nova Constituição. 
             Mas as vicissitudes por que passa D. Maria parecem não acabar e, nesse nefasto ano de 1826, um grande incêndio destrói o edifício do Tesouro e logo os Partidos se acusaram mutuamente. 
             Em 1838, foi promulgada nova Constituição, mas as crises ministeriais sucedem-se constantemente.
             Quando, em Novembro de 1837, nasce o herdeiro do trono - o futuro rei D. Pedro V - D. Fernando será, por lei, declarado rei, com o título de Fernando II. 
             Passou à posteridade como o “rei artista”, na expressão do escritor Castilho. Era D. Fernando um homem de grancle cultura, literária e artística, falava sete línguas e era ele próprio pintor, desenhador, gravador e ceramista. Grande conhecedor da flora de Portugal que desenhou, foi, acima de tudo, um verdadeiro protector do nosso património monumental, tendo mandado restaurar os Jerónimos (que tinham ficado com uma parte do convento destruída durante o terramoto de 1755), o Convento de Mafra, a Torre de Belém, a Sá de Lisboa, a Batalha e o Convento de Cristo em Tomar. Foi um verdadeiro mecenas para Columbano Bordalo Pinheiro e para o compositor Viana da Mota. Comprou os primeiros quadros a pintores como Tomás da Anunciação e Franscisco Metrass, sem esquecer as bolsas que concedeu a outros pintores para irem estudar para o estrangeiro. A ele se deve que a custódia de Belém não fosse derretida na Casa da Moeda. 
             O próprio rei sabia música e nos serões familiares cantava acompanhado ao piano: tinha até uma voz bastante agradável. E a rainha esquecia os seus problemas de governante. Rodeada de amigos mais íntimos e dos filhos que iam nascendo, ia bordando ou fazendo qualquer peça de enxoval para os seus ou para os filhos das princesas suas amigas, filhos de Clementina de Orleães ou da rainha Vitória. 
             À frente do Governo continuava Passos Manuel, que incumbiu Garrett de reformar o teatro português. Este Governo vai durar pouco tempo, mas fez grandes progressos no campo do ensino e da modernização administrativa. A Passos Manuel devemos a criação dos liceus, a reforma das Universidades, a criação de escolas de ensino superior, as Escolas Politécnicas de Lisboa e do Porto.
             Em Janeiro de 1842, num golpe de Estado, Costa Cabral, liberal de longa data que já apoiara D. Pedro, pai da rainha, no desembarque no Mindelo, repõe a Carta Constitucional e um mês depois a rainha chama-o ao palácio e nomeia-o ministro do Reino. 
             Cabral vai governar com mão de ferro, mas prossegue a linha de progressos de Passos Manuel no campo cultural com a criação da Escola de Arte Dramática, da Academia de Belas-Artes, a criação da Imprensa Nacional, e, muito principalmente, inicia a construção de estradas. É acusado de dominar toda a administração, de fazer censura e de dominar, inclusivamente, a própria rainha, que já lhe dera o título de marquês de Tomar. 
             Esta protecção exagerada vai custar à rainha a afronta e ignomínia de ser acusada de manter relações mais íntimas com o seu ministro. Incidente que ultrapassa as fronteiras e caricaturas e artigos maldizentes em jornais estrangeiros vão deixar amargurada D. Maria II, se bem que publicamente a verdade venha a ser reposta. Tudo não passara de uma calúnia. 
             Ainda em 1846, vão dar-se revoltas e sublevações em vários pontos do país como a da Maria da Fonte e da Patuleia. 
             Nesse ano, Costa Cabral é afastado, mas só o será definitivamente em 1851, quando o marechal Saldanha irá estar à frente de novo Governo. 
             Só em Junho de 1847, com a assinatura da Convenção de Gramido, se pôs termo à guerra civil. 
             Em 1851, os partidos extremistas quase a forçam a abdicar mas recusa, pois sabe que, embora débil, a estabilidade do país passa por ela: “mais depressa morreria combatendo nas ruas do que abdicar”, afirmou então. Na opinião de Júlio Vilhena, político e historiador contemporâneo de D. Pedro V, D. Maria “foi vítima não diremos das suas qualidades, mas das péssinas qualidades dos homens que a rodearam, nenhum, absolutamente nenhum deles foi sincero amigo do trono”.
             Temos que admirar esta rainha que consegue manter a cabeça fria, com um povo em pé de guerra permanente e em casa com uma prole numerosa para educar. 
             Nos seus 19 anos de reinado, soube sempre ser rainha e mãe, ao mesmo tempo, pois, em todas as crises políticas que o país atravessou, estava sempre D. Maria à espera de um filho e as suas obrigações como governante nunca foram descuradas por esse motivo. 
             Foi, realmente, uma mulher de grande força de vontade e de uma coragem assinalável. Se alguns contemporâneos a consideravam de difícil trato e autoritária e até tenha tido fama de “tirana”, a verdade é que se não tivesse sido uma rainha com pulso não teria acabado o seu reinado já sem guerras civis e proporcionado aos seus dois filhos que foram reis - D. Pedro V (infelizmente prematuramente morto pela “Colera Morbus”) e D. Luís, reinados, com uma certa estabilidade. É sabido que D. Luís foi um exemplo de monarca constitucional. 
             As crises políticas constantes no reinado de Maria da Glória não perturbam o seu ambiente familiar, mais do que uma vez toldado pelo profundo desgosto da morte dos filhos ainda pequenos. Dos 11 que teve, quatro morreram à nascença e D. Maria não verá o ano de 1861 em que os seus filhos, D. Pedro V já rei, João e Fernando irão morrer da epidemia de cólera. 
             A família real faz a sua vida pública, sendo costume D. Maria passear os seus filhos, de carruagem, por Lisboa ou a pé no novo passeio público, no Jardim da Estrela, cujos terrenos foram comprados em 1842. Sob a orientação de Bonard serão executados os trabalhos de jardinagem. A partir de 1850, os lisboetas tinham mais um belíssimo local de lazer para o qual contribuíram com avultadas ofertas muitos brasileiros, num significativo gesto de simpatia por esta rainha nascida no Brasil. 
             Bulhão Pato, nas suas Memórias, conta-nos que, certo dia, uma criança aproximou-se do príncipe D. Luís que passeava com a mãe e, ao querer abraçá-lo, sem perceber que o infante não era um menino como ele, D. Luís recua com repulsa. Mas D. Maria adverte-o, até com uma certa brusquidão, obrigando-o a pedir desculpa à criança ofendida e a retribuir-lhe o abraço. Desde cedo, a rainha tinha a preocupação de mostrar aos filhos que eram cidadãos comuns. 
             Os infantes estavam proibidos de tratar por “tu” o mais esquecido criado do palácio. A mãe não o permitia, bem assim como aos professores a quem eram dispensadas as mais respeitosas atenções. E se algum dia um dos infantes se lembrou de sair da aula sem dar satisfações ao mestre, foi só uma vez, porque a rainha, atenta e boa educadora, logo os orientava para o respeito e bom comportamento. De uma maneira geral, a rainha era alegre e bem humorada. Gostava de bailes que considerava óptimos meios de convivência e uma das festas a que a família real não faltava era de São João, que o duque da Terceira festejava no seu solar, abrindo portas e janelas e permitindo que nos seus jardins se misturasse, alegremente e sem preconceitos, nobres e populares. No dia seguinte, a festa acabava com uma tourada a que a rainha não faltava, pois era um dos seus momentos de lazer preferidos. 
             Com o passar dos anos e os frequentes partos, a rainha engordara e consta que se teria tornado ciumenta a ponto de afastar os embaixadores que tinham mulheres bonitas, com medo que o seu elegante marido se pudesse agradar delas.
             No seu reinado, apesar das vicissitudes por que passou, houve tempo para o progresso. Em 1835, já fora estabelecido o ensino primário gratuito. Em 1836, por acção de Sé da Bandeira, é decretado o fim do tráfego de escravos nas colónias portuguesas a sul do Equador, O primeiro selo postal a circular em Portugal tinha a sua efígie, em branco, segundo desenho de Francisco Borba Freire. Foram cunhadas moedas de ouro, prata e as primeiras de cobre. Foi introduzido o sistema métrico e a telegrafia eléctrica. 
             Fontes Pereira de Meio, em 1851, cria o ministério das Obras Públicas e, secundado por Rodrigo da Fonseca, vai equilibrar as finanças do pais, até aí bastante depauperadas pela instabilidade política constante. 
             Para os que nasceram nos anos 50 deste século, devem recordar as notas de mil escudos com o seu rosto e aqueles caracóis caídos de lado, penteado com que ficou imortalizada. 
             De grande alcance social e político foi a abolição da pena de morte, em 1852, por crimes políticos. 
             A rainha tinha paixão pelo teatro, gosto esse que lhe ficara dos tempos vividos na Corte da França. Confessa que nos períodos de escassez de meios, quando reinou, lhe custava privar-se desse gosto. 
             Vai empenhar-se, apoiada por Garrett, para que se construa um Teatro que será edificado no Rossio sobre as ruínas do palácio da Inquisição - O teatro D. Maria II, segundo projecto de Fortunato Lodi. As obras vão decorrer entre 1842 e 1846. O tecto tinha pinturas de Columbano Bordalo Pinheiro que foram destruídas no incêndio de 1964. 
             A inauguração foi a 13 de Abril. 
             O Banco Mercantil Portuense é inaugurado em 1850. 
             Em 1851, sobe pela primeira vez à cena, nesse teatro, onde se introduziu a iluminação a gás, o drama de Garrett Frei Luís de Sousa. 
             No campo das Letras, o período do reinado de D. Maria da Glória foi de uma fecundidade notável. Destacam-se Alexandre Herculano, que, além de escritor e historiador, foi um grande defensor do património nacional, tendo escrito mesmo, em 1838, Monumentos Pátrios, Garrett, Andrade Corvo, Bulhão Pato, João de Lemos, o matemático Daniet Augusto da Silva, o historiador visconde de Santarém, o legislador Mouzinho da Silveira. Na pintura, Domingos Sequeira pinta o seu belissímo quadro A morte de Camões, infelizmente perdido. 
             Está-se em pleno Romantismo em toda a Europa: Géricault pinta a Jangada de Medusa, Berlioz compõe a sua Sinfonia Fantástica, Verdi escreve as suas inigualáveis óperas Nabuco e Traviata, Augusto Comte escreve o Curso de Filosofia Positiva,Vitor Hugo publica Nossa Senhora de Paris e Stendhal Le Rouge et le Noir, a escritora George Sand publica o seu primeiro romance e Balzac A Comédia Humana, Dickens escreve Oliver Twist e David Copperfield, Louis Daguerre inventa a fotografia. Pintores como Ingres e Delacroix deixam-nos fascinados com os seus quadros enormes, com temas de grande dramatismo e de uma beleza inexcedível. Na medicina, o éter e o clorofórmio são utilizados pela primeira vez como anestésicos. Do outro lado do Atlântico, a tecnologia avança vertiginosamente; desenha-se a primeira locomotiva e lsac Singer constrói a primeira máquina de costura. 
             No campo político, a Europa forma uma Quádrupla Aliança entre a Inglaterra, França, Espanha e Portugal para evitarem que os regimes absolutistas possam triunfar em Espanha e Portugal.
             Como educadora, D. Maria II obrigava os filhos a uma grande disciplina acompanhada de muita compreensão e amor. 
             Os reis acompanhavam de perto os progressos nos estudos dos filhos. 
             Ester de Lemos no seu livro sobre D. Maria II, conta-nos em pormenor, baseada em cartas da época, como eram esses dias de exame dos principes. As provas eram prestadas perante os pais, professores e membros mais chegados da corte. Primeiro, era o pai a dar o seu parecer; depois, todos os presentes tinham que escrever a sua opinião que eram entre o bem “, “muito bem” e até “muitíssimo bem”. A mãe, que aqui deixava de ser rainha, nunca dava uma apreciação muito alta, era exigente com os filhos. No final, acabava numa festa com todos os presentes com as mesas postas como para um dia de aniversário. Faziam-se brindes e os infantes, como não bebiam álcool, levantavam o seu copo saudando com água. 
             O rei que tinha a paixão pelas plantas e flores apoiou os filhos a fazerem o seu herbário e cada infante tinha nos jardins do palácio das Necessidades o seu próprio talhão com árvores e flores, que tratavam com todo o cuidado. 
             Faziam bastante vida ao ar livre. Passavam as férias em Mafra, Colares e Sintra. 
             Nessa altura, já a ginástica era considerada fundamental para o bom desenvolvimento dos jovens e a rainha mandou colocar nos jardins do palácio barras e trapézios para a educação física dos filhos. 
             Sempre que era possível, D. Maria ia às touradas de que gostava muito. O rei não seria tão aficionado como ela. Tinha um temperamento diferente, a arte ocupava-lhe os seus lazeres. Coleccionava peças, que hoje podemos admirar em museus e palácios. Em 1838, vai comprar o antigo convento dos monges de S. Jerónimo e a cerca da Pena, em Sintra. As obras foram dirigidas pelo engenheiro alemão Von Eschweg e o português Possidónio da Silva. Só a abertura da estrada demorou dois anos. 
             O palácio começou a ser edificado em 1844 - só estará pronto em 1850. É o mais belo exemplar da arte romântica no nosso país, com toda a mistura de estilos que se usavam na época: cúpulas e minaretes, torres góticas, elementos renascentistas, manuelinos e até mudéjares. O local é único e a paisagem que de lá se pode contemplar torna-o uma visita obrigatória. 
             Infelizmente, D. Maria II não pôde desfrutar muito deste local maravilhoso, visto que vem a morrer de parto a 15 de Novembro de 1853. 0 cortejo fúnebre será quatro dias depois. Uma pomba poisou no coche funerário até S. Vicente de Fora, dando uma nota romântica e esta última viagem da desafortunada rainha. 
             Ficou sepultada no jazigo da família Bragança, no Panteão Real. 
             Será decretado luto por seis meses e o rei fica incomunicável durante oito dias. 
             D. Fernando assume a regência até à maioridade de D. Pedro V, seu filho. 
             Se bem que, mais tarde, case pela segunda vez com uma cantora lírica, a quem foi dado o título de condessa, D. Fernando, a 15 de Dezembro de 1885, repousará ao lado da que foi, durante 17 anos, sua mulher, companheira de bons e maus momentos, e mãe de seus filhos que ele continuou a educar nos mesmos moldes de D. Maria. 
             Um e outro foram acompanhados por uma multidão triste e sentida, pois foram amados pelo seu povo. 
             D. Pedro V, o futuro rei, resumiria numa frase enternecedora aquilo que esta nossa rainha foi como mãe: 
             “Minha Mãe, que aprendeu na escola da desgraça, que tinha os instintos muito superiores à sua espécie, conseguiu de nós o que há séculos não via a Casa de Bragança, que os irmãos vivessem unidos.” 

Informação retirada daqui
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